domingo, 14 de agosto de 2016

.partir #2

Indo trabalhar para um Instituto pertencente ao CNRS na região de Paris-Saclay, não tive grandes dores de cabeça com aspectos logísticos, especificamente com o alojamento.

Acontece que na região do pólo científico existe uma organização, a Science Accueil, que ajuda estudantes de PhD, post-docs (eu!) e investigadores estrangeiros a acomodarem-se na região. Essa ajuda compreende ajudar a encontrar alojamento, facilidade na abertura de conta no banco (uma pesquisa rápida no Google disse-me que uma verdadeira pain in the a$$), ajuda para conseguir seguro de saúde, seguro de casa, escola para crianças... no cômputo geral parece-me funcionar bem, já que foi através da listagem da Science Accueil que consegui o meu T0 de 24 metros quadrados a dez minutos a pé do I2BC.

Basicamente a pessoa inscreve-se na plataforma, tem que indicar uma série de dados oficiais, tal como nome do laboratório e contacto do responsável do mesmo, ordenado mensal, entre outros, e seleccionar para quê é que precisa de ajuda. No meu caso específico pedi ajuda para casa e abertura de conta no banco. O primeiro ponto já foi tratado -  associação tem uma listagem de proprietários com fotos (a maioria) e a localização exacta do imóvel, bem como outras indicações úteis acerca da casa, e funciona depois como intermediário. O contacto foi iniciado por mim e tratei de tudo com os senhorios via email ou telefone (preferia que tivesse sido só por email porque o inglês deles falado metia medo ao susto - é para me ir habituando), e depois de tudo combinado tive só que informar a Science Accueil que já tinha a minha situação resolvida.

A minha estadia no fantástico T0 de 24m2 começa bem, já que no dia em que eu chego a Orly os meus senhorios partem de viagem durante 3 semanas. Colocou-se o problema da chave: como é que eles ma iriam entregar? Deixando debaixo do tapete? Enviando-a por correio par Portugal? Com um vizinho? Não! Metendo o meu futuro chefe ao barulho, pois claro. Sugeriram os meus senhorios que o meu futuro chefe combinasse com eles e fosse lá a casa ver o apartamento (errr... um bocadinho abusados, não?) e ficasse fiel depositário da chave. Expus a minha situação ao meu futuro chefe, mas omiti a parte em que os senhorios queriam que ele lá fosse - achei que era um abuso, afinal o problema era meu, não tinha que arrastar o homem para os meus assuntos com os senhorios. Perguntei só se havia a possibilidade de os senhorios deixarem a chave no laboratório e ficávamos assim. Para meu grande espanto, o meu futuro chefe ofereceu-se para ir a casa dos meus senhorios buscar a chave e ficar com ela no laboratório até eu chegar no dia 30.

Ena pá, acho que tenho um chefe ponderado, amável e boa pessoa. É melhor não dizer isso alto. Pode dar azar.

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sábado, 13 de agosto de 2016

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Há uns dias alguém me dizia: "mas vai agora assim de repente para França? Como é que é isso??".

Na verdade não foi de repente - é algo que já anda a ser pensado desde Março. Quando surgiu a oportunidade de me candidatar o assunto foi discutido com pessoa com quem divido a minha vida, com os meus pais e com duas ou três pessoas importantes para mim e que não pertencem ao meu núcleo familiar, por esta ordem.

Em Março ainda a minha tese de doutoramento estava por corrigir e entregar e não fazia ideia de quando iria ser o D-Day. Muita tinta podia ainda correr e durante algum tempo mantive a informação restrita a um pequeno círculo de pessoas. Quando entreguei a tese e enquando esperava pela marcação da defesa contei a mais algumas. Nas vésperas da minha defesa de doutoramento, e depois de já me ter reunido com o futuro chefe pessoalmente, já o gato estava fora do saco*. Não houve outro assunto para escrever no meu postal de felicitações, recebi Uma Aventura alusiva à ida e foi o tema geral do lanche que se seguiu à defesa.

As férias durante o mês de Agosto têm o mote não-oficial de despedida, são aproveitar o sol, a praia, as  minhas gatas, as actividades e as pessoas que vou deixar de ver todos os dias. Faltam duas semanas e meia, mais coisa menos coisa, e se às vezes parece que o dia da ida está já aí à porta, outras vezes parece que ainda tenho muito tempo pela frente.

Não fiz ainda a lista do que quero levar nem comecei a colocar coisas de parte para meter na mala nova de 100 L. Nunca tinha tido uma mala tão grande, nem para férias. Parece-me enorme e simultaneamente minúscula para lá encafuar tanto pertence. Sei que quando der conta estou no Aeroporto para embarcar e não vai ser para uns dias de sightseeing numa qualquer cidade europeia, vou deixar o que conheço e a minha zona de conforto para trás, para desembarcar duas horas depois num país diferente, que vai ser a minha nova casa pelo menos nos próximos dois anos.

Tento não pensar muito no momento da partida, porque inerentemente penso nas pessoas que cá deixo e o coração aperta-se-me um bocadinho (mentira, é um bocadão). O problema é fundamentalmente esse: as pessoas que cá deixo. Eu já fui uma pessoa que foi "deixada", sei como as coisas funcionam. Quem parte vai de coração ansioso, quem é "deixado"também perde um bocadinho do coração, mas a verdade é que a vida continua mais ou menos igual, ou com uma ligeira alteração de rotina. Quem vai começa tudo de novo, novo país, nova língua, novas horários, novas pessoas, novas rotinas. E a saudade vai apertar, mas vai ter que esperar pelo Skype ou pela resposta no Whatsapp ou no Facebook Messenger, suspensa, para não interferir com a rotina do outro lado. 

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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Às vezes estou em pulguinhas para voltar a ser cientista e a adrenalina de começar num sítio novo sobe por mim acima.
Outras vezes penso no que raio me passou pela cabeça para deixar as minhas gatas, o meu namorado, a minha família, os meus amigos e rumar para um país onde não conheço ninguém, não falo a língua (Bonjour e palavras soltas não contam), para ir trabalhar num projecto bastante diferente daquilo a que estou habituada.

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quinta-feira, 7 de julho de 2016

Quando anunciei às pessoas próximas que havia uma forte possibilidade de passar dois anos a trabalhar fora, o que mais ouvi foi:

"então e o A.?"
     tem o contrato de bolsa de PhD dele até ao início de 2018.

"então e as tuas gatas?"
     ficam em Lisboa com o dono, como é óbvio.

"mas vais-nos abandonar assim?"
     não vou abandonar, vamos continuar a ser amigos e vamos falar muito por Skype.

"então mas porque é que não trabalhas cá?"
     porque quero ser cientista e no meu país infelizmente não há dinheiro para financiar todos os doutorados que querem ser cientistas nas Ciências da Vida, a competição é mais que muita, e a experiência internacional só me valoriza o CV.

"mas e vais quando?"
     ainda não sei o dia certo, tenho que decidir com o futuro chefe.

"e estás preparada ara ser emigra?"
     não vou ser bem emigra. quer dizer, vou. E não falo a língua do país de destino. mas também é já ali e os voos são baratos e posso cá vir com frequência.

"então e depois, como é que vai ser?"
     pois que não sei, ainda muita água tem que correr, e eu ainda nem sequer fui...

Fui sempre relevando e respondendo com ligeireza porque parecia que o dia estava longe. Mais longe que o dia da Defesa, em boa verdade. Agora que comecei a dar início ao processo, nomeadamente preencher formulários, pedir certidões, cartões e coisas do género, parece que o nó no estômago se acentua e que isto vai mesmo acontecer. É uma sensação semelhante à que se apoderou de mim quando tive que sair de casa para ir para a Faculdade, com a agravante que não estou à distância de um Intercidades Pragal - Vendas Novas. 

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