sexta-feira, 10 de abril de 2015

.eu ainda sou do tempo #1

Estava hoje a pensar na redundância dos blogs e das duas respectivas páginas de Facebook.
E pensei nos primórdios da bloga, quando nem Facebook havia. É que eu sou mesmo desse tempo. Passa-se este ano uma década das minhas primeiras incursões no mundo dos blogs. Corria o ano de 2005, era Agosto e eu estava de férias do primeiro ano da faculdade.

Na altura criei o perfil do Blogger para ser isso mesmo, blogger. Escrever umas coisas (umas profundas, outras parvas) e ver quem aparecia. Já aqui disse que essas primeiras incursões não vingaram e que o nome do Sétima Vez vem,  em parte, dessa inabilidade, falta de paciência e (qual pescadinha de rabo na boca) da falta de incentivo e de público.

Assisti, no recato do meu relativo anonimato, ao boom dos que são hoje os grandes blogs portugueses e ao desaparecimento de outros.

Naquele tempo os blogs eram do mais medonho que se possa imaginar. Os templates e o decor daquela altura estão para os templates de hoje quase como o Hi5 (blast from the past, gostaram?) está para o Facebook. Esqueçam lá templates clean e minimalistas. Um pouco à semelhança do Hi5, um blog de uma pessoa normal tinha um fundo assim a dar para o piroso,  com musiquinha (Evanescence de preferência) em vez de uma playlist do Spotify, glitter e em vez de um feed inspiracional do Instagram havia um qualquer álbum do Picasa ou do Photobucket a passar fotos das últimas férias de verão na praia com os amigos.

Se na altura podíamos escarrapachar o endereço do nosso blog na nossa página pessoal do Hi5, ou deixar o link do nosso perfil pessoal do mesmo na barra lateral do blog (e nos lixávamos que os amigos tomassem conhecimento do blog, tendo oportunidade de ir gozar connosco em anónimo) , hoje um blogger que se preze tem uma página de Facebook do blog. E partilha os posts do blog no Face. E fala com os leitores/seguidores/gostadores no mural da página.

É nisto que eu acho que se e perde um bocadinho a essência dos blogs. Gosto de um blogger que interage com os seus leitores,  que responde na caixa de comentários,  que não remete para a página de Facebook. Gosto da interacção à antiga, em que posso ir conhecer outros sítios virtuais carregando no perfil dos comentários.

Nem tudo é  mau. O Blogger modernizou-se e as pessoas modernizaram as abordagens e acompanharam as novas ferramentas que têm à disposição para serem vistas. Escrevi-vos este post numa fila de trânsito interminável em para arranca na A5 (um dia destes falo da minha road rage, um dia), a partir da aplicação do Blogger para Android, enquanto estava com alguma inspiração. Se tivesse esperado por chegar a casa estas ideias não teriam, provavelmente, visto a luz do dia.
É um admirável mundo novo, mas tenho algumas saudades de quando isto ainda estava tudo no início e a bloga era uma aldeia. Havia menos chatices.

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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Fiquei sem esquentador no último fim de semana. Até vir um técnico ainda vão passar uns dias, em que só temos água aquecida no fogão, com as maiores panelas que temos em casa. O banho é desenrascado assim (eu tomo banho no ginásio), e lavar a loiça com água quente também. 

Lavar a loiça com água aquecida ao lume foi algo que me transportou vinte anos no tempo para casa da minha avó.

Em casa, a minha avó tem um edifício anexo, conhecido como "casa grande". A casa grande não é mais do que uma cozinha de lume de chão, típicamente alentejana, com uma única porta, uma única janela (grande), uma chaminé usada para fumar enchidos aquando da matança do porco e um telhado com telhas de zinco. Era na casa grande que se faziam todas as refeições, em todas as estações do ano, estivesse calor ou frio. Passei lá inúmeros Natais, almoços de Páscoa, jantares de domingo.

Tinha uma mesa de refeições comprida e anormalmente alta, onde eu ainda hoje me sento com a ajuda de uma cadeira construída pelo meu avô, uma cadeira de cozinha com pernas de ferro e uns acrescentos feitos com tubos de ferro soldados, que, a seu tempo, ele fez para todas as netas (somos 3). Ainda hoje quando me sento sei qual é a minha cadeira (ridículo, mas tem a forma do meu rabo, de certeza). Usávamos guardanapos de pano, os copos eram verde-garrafa, a minha avó tinha sempre Sumol de Ananás e fazíamos sopas de pão.

Em miúda gostava sempre que me deixassem lavar a loiça. Sentia-me crescida e em casa a minha mãe não ia nessa conversa (além de termos máquina de lavar loiça), e a minha avó fazia-me sempre a vontade. Não havia esquentador nessa casa grande e a única forma de aquecer água era no lume de chão (sempre aceso de Setembro a Maio), numa panela preta de ferro com três pés, a fazer lembrar um caleirão de bruxa. Lembro-me de se tirar a panela do lume e de isso ser tarefa para os grandes, porque era ainda mais pesada com a água que tinha lá dentro. E vertia-se para o lava loiça, onde caía a fumegar, de tão quente que estava. Abria-se a torneira e saía a água fria para temperar. E eu lá ficava a lavar uns pratos ou a passar a loiça por água e a empilhá-la na pedra mármore para secar. Echia-se novamente a panela e ela lá ficava, perto das brasas para a vez seguinte. Quando o lava loiça se esvaziava, adorava levantar a cortina da "buraca" e ficar a ver a água a escorrer para o ralo, com destino incerto.


No Domingo. a lavar a loiça com a água aquecida no fogão, num lava loiça com uma torneira de onde só saía água fria, a fazer uma tarefa que não é normalmente minha e pela qual, actualmente, não tenho grande carinho, dei por mim a pensar na panela preta, e na mesa, e na minha cadeira adaptada, e na buraca tapada com uma cortina matchy-matchy com a cortina da chaminhé do lume de chão, vermelha às bolinhas brancas. E na casa grande, nos meus avós vinte anos mais novos de enxada na mão, e agora vinte anos mais velhos, mais doentes e mais debilitados e sem mobilidade. E pensei que já não tenho muito tempo e que agora já só vou à "outra casa", porque a casa grande já não se usa. Pensei que Sábado é dia de ir ver os velhotes.

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